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1 June 2014

1 de Junho e Kahlil Gibran sobre Os Filhos

"O Profeta" de Kahlil Gibran é um dos livros mais bonitos, profundos e sábios de sempre. A bíblia cá de casa, dada há muito pela minha mãe.

Uma mulher que carregava o filho nos braços disse: "Fala-nos dos filhos."

E ele falou:

Vossos filhos não são vossos filhos,
são os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor,
mas não vossos pensamentos.
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles,
mas não podem fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás
e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos
são arremessados como flechas vivas.
O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito
e vos estica com toda a sua força
para que suas flechas se projectem rápido e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria;
Pois assim como Ele ama a flecha que voa,
ama também o arco que permanece estável.

Kahlil Gibran, in O Profeta

24 May 2014

Se não ponho disfarce venho a arrepender-me. Tenho, tive, terei uma máscara que me foi dada há muito.

Sara da Costa Oliveira

22 May 2014

E por vezes


E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

David Mourão-Ferreira 

 
 
Ziiwon

8 April 2014

Sol(idão)


Olhar de frente o Sol Assim se aprendem
As letras iniciais da Solidão

David Mourão-Ferreira


4 April 2014

O nunca ter tido...


Dizer que tenho saudades tuas, agora
é uma espécie de mentira coberta com um pano de linho
Tenho somente saudades do que era antes de Ti
E isso é a cruz que carrego
Vincada e afiada que se pôs as minhas costas
E se me mexo me corta em dois
Como carne fina do talho gourmet
Comparação inadequada, eu sei
Mas a única que penso agora, que sou estreita.
Por vezes olho para o relógio, e já nem contando as horas
Reparo nas datas, extensas
Dou por mim a ver um mês
E no momento a seguir, o olho
E vejo dois meses, a correr
Pergunto-me se estou louca ou simplesmente
Exausta
O tempo deixa de ter nexo e o Mundo fica pequeno
Os dias passam como se não tivessem vida
E em vez de correr, existo
Durmo ao Luar e ao Sol
Como se tudo se tratasse do mesmo
Do sonho
Do sono
Explicar-te porque sinto saudades tuas, agora
é uma espécie de firmamento do caminho insano que percorro
Tenho somente saudades do Tempo que parava
Quando nos teus braços respirava
Sossegava
E agora não tenho sangue suficiente para estancar a ferida
Dura, profunda, dolorosa
Como os pés que piso
Que não são meus.

Sara da Costa Oliveira

26 March 2014

Fim-de-semana em família*


tenho de andar... tenho de andar...
tenho de arar os campos
tenho sonhos p'ra semear

tenho castelos p'ra levantar
e horizontes p'ra palmilhar
muito antes de a noite chegar

muito antes de a noite chegar

Fernanda Lemos







*Dedicado, entre outras coisas, à Poesia, como partilhei aqui.

24 March 2014

Cabo da Roca*


Eis aqui, quase cume da cabeça 
de Europa toda, o Reino Lusitano, 
onde a terra se acaba 
e o mar começa (...)

Luís de Camões, in Os Lusíadas







*Cabo da Roca (Cape Roca) is a cape which forms the westernmost extent of mainland Portugal and continental Europe.
I heard one can have an incredible sunset over here (and I bet that is incredibly true), so next time I'll make sure I'll go there with a more beautiful sunlight other than at 3pm...

21 March 2014

David Mourão-Ferreira e um quarto escuro

O dia é Mundial da Poesia.
Passei o dia a ler poesia, literalmente. Podia não ter acontecido, mas começou a baixar em mim o "travo amargo da melancolia" assim que li o primeiro poema hoje de manhã - "efeitos secundários da poesia", não é? Mas repito, podia não ter acontecido.
E chovia... No fim do dia, só queria sentar-me no chão do quarto e tudo escuro. Queria mais Poesia também, mas não queria luz para ler.
Foi assim que vi o documentário do David Mourão-Ferreira ("Duvidávida") e tive tudo o que queria: o chão, o quarto escuro, a Poesia e a chuva.

"Duvidávida", David Mourão-Ferreira

 

Entre o Sono e o Sonho vol. V

Há Poesia amanhã no Estoril! A apresentação do V volume da antologia de Poesia Contemporânea (1000 poemas) da Chiado Editora vai ser feita amanhã.
Um dos poemas é pois da minha mãe*! Lá estaremos.

*A minha mãe e a Poesia aqui e aqui.



ai funesta primavera quem me dera, quem nos dera ter morrido nesse dia

Amália Rodrigues - Primavera

 


Todo o amor que nos
prendera
como se fora de cera
se quebrava e desfazia
ai funesta primavera
quem me dera, quem nos dera
ter morrido nesse dia

E condenaram-me a tanto
viver comigo meu pranto
viver, viver e sem ti
vivendo sem no entanto
eu me esquecer desse encanto
que nesse dia perdi

Pão duro da solidão
é somente o que nos dão
o que nos dão a comer
que importa que o coração
diga que sim ou que não
se continua a viver

Todo o amor que nos
prendera
se quebrara e desfizera
em pavor se convertia
ninguém fale em primavera
quem me dera, quem nos dera
ter morrido nesse dia

David Mourão-Ferreira

P, de Primavera e Poesia


Hoje sonhei que não era sonho.
Vi que as flores cresceram sem sol,
As árvores longas e fortes,
Mais fortes que o betão derramado,
Mais verdes, mais elas.

Hoje sonhei que nunca acordara.
Vi que o Mundo era só sonho,
Só meu,
Só nosso.
Os lençóis eram brancos,
E passava uma leve brisa nos meus cabelos,
Delicadamente os levantava,
Só para me veres Mulher.
Mais Eu,
Mais forte que as lembranças.
Menos sujo o caminho,
Menos massacrado o tormento.

Hoje sonhei que não havia mendigos.
Vi que os Homens se vestiam lavados,
Os dentes brancos, o sorriso mais branco ainda.
Cada um entrava na sua casa,
Pintada de fresco com a cor do céu.
E o pão que levavam à boca não era duro,
Não era seco.

Hoje sonhei que jogava à bola na rua.
Que caía no chão e me magoava nos joelhos.
Na fonte do jardim passava água fresca e a ferida estancava.
O sangue parava de jorrar,
E a dor que existia,
Era vontade de rir de ter tropeçado.

Hoje sonhei que os pássaros voavam para o rumo certo.
Destino sem desvios de poluído caminho.
Sem penas a caírem na viagem, nem corpos.
E a música que ouvia vinha dos céus,
Do seu cantar.

Hoje sonhei que corria tanto,
Tanto,
Que o cansaço não me conseguia apanhar.

Para sempre.

Sara da Costa Oliveira 

19 March 2014

"O que nos resguarda é o peito da outra pessoa"

[Uma passagem deliciosa escolhida pela Mafalda aqui.]

(...) alguém que porventura não vemos e que nos resguarda as costas com o peito, que está prestes a roçar em nós e acaba sempre por fazê-lo, e às vezes, inclusive, essa pessoa põe-nos uma mão no ombro, por meio da qual nos tranquiliza e também nos agarra. Assim dorme, ou está convencida de que dorme, a maioria dos casais e namorados, os dois voltam-se para o mesmo lado quando se dão as boas-noites, de modo que um passa a noite inteira de costas voltadas para o outro e sabe que está amparado por ele ou ela, por esse outro, e, a meio da noite, ao acordar sobressaltado por um pesadelo ou sentindo-se incapaz de conciliar o sono, ao ser acometido por uma febre ou julgar-se sozinho, abandonado e às escuras, basta-lhe dar meia-volta e ver então, à sua frente o rosto daquele que o resguarda, que se deixará beijar em tudo o que no rosto for beijável (nariz, olhos e boca; queixo, testa e faces) ou quem sabe, meio adormecido, lhe pousará uma mão no ombro para o tranquilizar, ou para o agarrar, ou talvez para se segurar a si próprio.

Javier Marías, in Coração tão branco

10 March 2014

Ode à Pateira III


Tenho sempre a ligeira sensação de querer partir.
Não digo que seja para sempre, nem para um lugar específico. Só querer sentir o tédio de chegar a algum lado e querer voltar, olhar para mim numa paisagem diferente em que a podridão alheia tem outro cheiro, um cheiro mais agudo por não ter o filtro do conforto que a casa me dá. Mesmo, eu, em toda a minha existência, nunca ter sabido qual era o meu lugar, se o canto da minha casa de nascença, se o peito onde consegui descansar um dia.
De resto tropeço em muitas situações que me causo só para me sentir mais viva. Faço tantas vezes a mala que nunca mais a tirei de frente da cama, é um hábito, e olhando para ela contorno a felicidade por não lhe saber a meta. Quanto mais longe mais perto, quanto mais perto mais longe do obstáculo.
Criar um caminho infinito, matar aos poucos a ideia da vida que pensei que teria e cada vez aproximar-me da plena desolação de não ter destino. Aumento o cansaço e mutilo o corpo, os membros desencaixam do sítio mas não afrouxam nem morrem sem nunca se terem partido.
É um prazer. E depois do amor, é o prazer que nos torna amáveis.
Quero ficar, eu quero ficar, e por querer ficar muito é que parto tanto. Se me deres a mão e me disseres que vens para me calcar o sonho sou capaz de permanecer entre os teus braços.
Diz-se que o Homem sozinho é um Homem mais puro, concordo desconcordando. Ninguém é puro se o Amor não for real, se a mão que nos puxa não for para o centro da Terra contrariamente ao sentimento de liberdade que só existe se um dia já fomos presos.
Ir.
Sair do lugar para querer voltar ao peito que nos acolhe enquanto dormimos. E quando partir outra vez, talvez parta contigo, porque sei que se voltar, volto desapegada da viagem, só por me teres a mão.

Sara da Costa Oliveira
 

Ode à Pateira I e II, aqui e aqui.

P.S. A lente da máquina estava incrivelmente suja.

17 February 2014

Boa noite.

Vai dormir, pequena, ainda que acordada.
Vive sonolenta na viagem,
Adormecida nos sentidos,
Com calma na corrida.
Sem, com
Com, sem
Faz-te igual
Debilita o prazer,
Assim, quando partir,
só tem ida, sem volta,
Sem esperas.
Sem poder.
Com, sem
Sem, com
Faz-te igual
Dorme, amor, sê paciente.
O refluxo do pensamento só vira Mundos ao contrário,
E o chão não é céu,
O chão nunca vai ser céu.
Esquece os dias, sê inutil como as nuvens,
A chuva, bem sabes, cai sempre no mesmo sítio.
Com, sem
Sem, com
Faz-te igual
Fecha os olhos, pequena.
Não tenhas consciência do sonho,
ele só existe para o acordares, bem sabes.
Sorri, amor, sorri.
Quanto mais vires que a rua é estreita,
as árvores longas e esguias,
e tu mais mais estreita, e mais esguia ainda.
Sem, com
Com, sem
Faz-te igual
Respira, meu amor, inspira.

A náusea acaba quando a manhã passar para outra rua qualquer.
E aí já estarás perdida, por ti.

Sara da Costa Oliveira

14 January 2014

?

A tua imagem perdida por entre as linhas do raciocínio.

Esquecer-te

Aliviar a tensão do maxilar que há anos me destrói os dentes.
Andar em frente, sem a angústia no corpo, tornando-me mais que alma.
Mais que choro.

Esquecer-te

Atravessar sem dor e sem mácula os passeios outrora pisados.
Tardar o cair da noite, gostar de olhá-lo luz.
Ver o cinzento da calçada e não o sentir Eu.

Esquecer-te

Abrir a janela pela manhã e não ter medo do pesadelo sonhado, quase tão real, quase tão Tu.

Esquecer-te

Abrir os passos largos do destino e acertar o ar com outro respirar mais acelerado.
Deitar ao lixo o velho guarda-roupa onde não havia uma peça de Verão por sentir só frio.

Esquecer-te

Olhar noutros olhos, em todos os outros que não teus, e ver alguém que não Tu.
Tudo o que sou, ser, aos poucos tudo o que já não era, acordar.

Esquecer-te

Repousar num peito que me quer, e que eu quero. Sem mentiras nem enganos, sem ti no olhar furado, sem Ti.

Esquecer-te, por fim.

Tentar ferozmente lembrar-me da tua face e todos os teus cantos estarem apagados.

Sara da Costa Oliveira

28 December 2013

You know, the soul...


How long has it been since someone touched part of you other than your body?

Laurel Hoodwrit

1 December 2013

Hurts so bad

One bended knee is no way to be free
Lifting up an empty cup, I ask silently
All my destinations will accept the one that's me,
So I can breathe

Circles they grow and they swallow people whole
Half their lives they say goodnight to wives they'll never know
A mind full of questions, and a teacher in my soul
And so it goes

Don't come closer or I'll have to go
Holding me like gravity are places that pull
If ever there was someone to keep me at home
It would be you

Everyone I come across, in cages they bought
They think of me and my wondering, but I'm never what they thought
I've got my indignation, but I'm pure in all my thoughts
I'm alive

Wind in my hair, I feel part of everywhere
Underneath my being is a road that disappeared
Late at night I hear the trees, they're singing with the dead
Overhead

Leave it to me as I find a way to be
Consider me a satellite, forever orbiting
I knew all the rules, but the rules did not know me
Guaranteed.


Eddie Vedder - Guaranteed (Into the Wild)

29 November 2013

Autumn days

Ella Fitzgerald & Louis Amstrong - Autumn in New York 

Autumn comes on fiery wing 
of flaming leaves
and redbirds sing. 
And twirling leaves fall to the ground
igniting magic all around. 
So Winter waits, and Summer sleeps,
And Autumn, in the middle, keeps.
Belle Whittington


25 November 2013

O verso debaixo da pele


O verso debaixo da pele não é o mesmo que uma dor ou que uma inflamação de um orgão. Não se elimina com medicamentos. O verso que um homem saiba de cor só se elimina com a brutal amnésia. Ou, então, com o excesso de informação que o mundo imbecil o obriga a guardar.

Gonçalo M. Tavares, in O Senhor Breton

22 November 2013

The Pale Blue Dot

For days when we should take a step back and calm down our ridiculousness.

The Pale Blue Dot by Carl Sagan


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