21 March 2014

David Mourão-Ferreira e um quarto escuro

O dia é Mundial da Poesia.
Passei o dia a ler poesia, literalmente. Podia não ter acontecido, mas começou a baixar em mim o "travo amargo da melancolia" assim que li o primeiro poema hoje de manhã - "efeitos secundários da poesia", não é? Mas repito, podia não ter acontecido.
E chovia... No fim do dia, só queria sentar-me no chão do quarto e tudo escuro. Queria mais Poesia também, mas não queria luz para ler.
Foi assim que vi o documentário do David Mourão-Ferreira ("Duvidávida") e tive tudo o que queria: o chão, o quarto escuro, a Poesia e a chuva.

"Duvidávida", David Mourão-Ferreira

 

Entre o Sono e o Sonho vol. V

Há Poesia amanhã no Estoril! A apresentação do V volume da antologia de Poesia Contemporânea (1000 poemas) da Chiado Editora vai ser feita amanhã.
Um dos poemas é pois da minha mãe*! Lá estaremos.

*A minha mãe e a Poesia aqui e aqui.



ai funesta primavera quem me dera, quem nos dera ter morrido nesse dia

Amália Rodrigues - Primavera

 


Todo o amor que nos
prendera
como se fora de cera
se quebrava e desfazia
ai funesta primavera
quem me dera, quem nos dera
ter morrido nesse dia

E condenaram-me a tanto
viver comigo meu pranto
viver, viver e sem ti
vivendo sem no entanto
eu me esquecer desse encanto
que nesse dia perdi

Pão duro da solidão
é somente o que nos dão
o que nos dão a comer
que importa que o coração
diga que sim ou que não
se continua a viver

Todo o amor que nos
prendera
se quebrara e desfizera
em pavor se convertia
ninguém fale em primavera
quem me dera, quem nos dera
ter morrido nesse dia

David Mourão-Ferreira

P, de Primavera e Poesia


Hoje sonhei que não era sonho.
Vi que as flores cresceram sem sol,
As árvores longas e fortes,
Mais fortes que o betão derramado,
Mais verdes, mais elas.

Hoje sonhei que nunca acordara.
Vi que o Mundo era só sonho,
Só meu,
Só nosso.
Os lençóis eram brancos,
E passava uma leve brisa nos meus cabelos,
Delicadamente os levantava,
Só para me veres Mulher.
Mais Eu,
Mais forte que as lembranças.
Menos sujo o caminho,
Menos massacrado o tormento.

Hoje sonhei que não havia mendigos.
Vi que os Homens se vestiam lavados,
Os dentes brancos, o sorriso mais branco ainda.
Cada um entrava na sua casa,
Pintada de fresco com a cor do céu.
E o pão que levavam à boca não era duro,
Não era seco.

Hoje sonhei que jogava à bola na rua.
Que caía no chão e me magoava nos joelhos.
Na fonte do jardim passava água fresca e a ferida estancava.
O sangue parava de jorrar,
E a dor que existia,
Era vontade de rir de ter tropeçado.

Hoje sonhei que os pássaros voavam para o rumo certo.
Destino sem desvios de poluído caminho.
Sem penas a caírem na viagem, nem corpos.
E a música que ouvia vinha dos céus,
Do seu cantar.

Hoje sonhei que corria tanto,
Tanto,
Que o cansaço não me conseguia apanhar.

Para sempre.

Sara da Costa Oliveira 

20 March 2014

Stunning Carolina Engman


Women in black are always dangerous, and delicate.




Photos: Fashion Squad

Lover, you should've come over

[Because] Sometimes a man must awake to find he [really] has no one

Jamie Cullum - Lover, you should have come over


19 March 2014

"O que nos resguarda é o peito da outra pessoa"

[Uma passagem deliciosa escolhida pela Mafalda aqui.]

(...) alguém que porventura não vemos e que nos resguarda as costas com o peito, que está prestes a roçar em nós e acaba sempre por fazê-lo, e às vezes, inclusive, essa pessoa põe-nos uma mão no ombro, por meio da qual nos tranquiliza e também nos agarra. Assim dorme, ou está convencida de que dorme, a maioria dos casais e namorados, os dois voltam-se para o mesmo lado quando se dão as boas-noites, de modo que um passa a noite inteira de costas voltadas para o outro e sabe que está amparado por ele ou ela, por esse outro, e, a meio da noite, ao acordar sobressaltado por um pesadelo ou sentindo-se incapaz de conciliar o sono, ao ser acometido por uma febre ou julgar-se sozinho, abandonado e às escuras, basta-lhe dar meia-volta e ver então, à sua frente o rosto daquele que o resguarda, que se deixará beijar em tudo o que no rosto for beijável (nariz, olhos e boca; queixo, testa e faces) ou quem sabe, meio adormecido, lhe pousará uma mão no ombro para o tranquilizar, ou para o agarrar, ou talvez para se segurar a si próprio.

Javier Marías, in Coração tão branco

17 March 2014

I'm afraid it won't...


"I think part of the reason why we hold on to something so tight is because we fear something so great won't happen twice."

16 March 2014

Le Week-End

I haven't watched as much movies as I'd like lately, actually very few of them. (Blame it on work!) 
I read something about Le Week-End the other day and, as it happens with every good movie I think it will be, I started to feel anxious about watching it; well, the week passed but this morning I made it.
I don't know if it was Paris (here), or the grace, class and elegance of Lindsay Duncan (Paris suited her perfectly!), or the soundtrack (you always get me with jazz!) or the script, but, as expected - I wasn't anxious for nothing -, this is one of my kind of movies.
The final scene is priceless!

 

Pela janela...

Entra-me tudo pela janela: o Sol, a luz, o mar, o ar quente/fresco dos dias de Março e até o Coltrane.
Tudo junto, torna difícil a vontade de sair de casa, apesar de saber que lá fora se está igualmente bem. Tudo junto, é o que faz estes raros momentos tão preciosos e demasiado bons para serem verdade.

My Favorite Things - John Coltrane



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