[Uma passagem deliciosa escolhida pela Mafalda
aqui.]
(...) alguém que porventura não vemos e que nos resguarda as costas com o
peito, que está prestes a roçar em nós e acaba sempre por fazê-lo, e às
vezes, inclusive, essa pessoa põe-nos uma mão no ombro, por meio da qual
nos tranquiliza e também nos agarra. Assim dorme, ou está convencida de
que dorme, a maioria dos casais e namorados, os dois voltam-se para o
mesmo lado quando se dão as boas-noites, de modo que um passa a noite
inteira de costas voltadas para o outro e sabe que está amparado por ele
ou ela, por esse outro, e, a meio da noite, ao acordar sobressaltado
por um pesadelo ou sentindo-se incapaz de conciliar o sono, ao ser
acometido por uma febre ou julgar-se sozinho, abandonado e às escuras,
basta-lhe dar meia-volta e ver então, à sua frente o rosto daquele que o
resguarda, que se deixará beijar em tudo o que no rosto for beijável
(nariz, olhos e boca; queixo, testa e faces) ou quem sabe, meio
adormecido, lhe pousará uma mão no ombro para o tranquilizar, ou para o
agarrar, ou talvez para se segurar a si próprio.
Javier Marías, in Coração tão branco