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6 June 2016

Pastelaria

Hoje é dia de festa para mim e na semana passada, pelas mesmas razões, ofereci este poema a uma série de pessoas que me acompanharam.
Por essas razões e para mais tarde recordar (!), parece-me uma boa altura para o deixar aqui, o que, quase inexplicavelmente, nunca tinha acontecido, um dos meus preferidos há tanto tempo.

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra


Mario Cesariny

6 January 2016

do amor para 2016

Não digas que amas se não cuidas diariamente, se não deixas o outro ser, mesmo nos seus mais profundos erros, ou se não escutas. Não digas que amas se não sabes os seus sonhos e os seus pesadelos, se não recordas os sonhos, se não acompanhas nos pesadelos. Não penses sequer se amas se isto não te parece simples, porque isto não passa de uma pequena parte de amar. Assim, se não tudo isto, poderás antes dizer "gosto de ti ao acaso", "o que eu imagino que sejas apraz-me verdadeiramente", ou mesmo "a ideia que me dás de ti deixa-me contente", será melhor para os dois.

Lorina Ventura

 




 

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco.

Mario Cesariny in Pena Capital

23 August 2015

If a poem hasn't ripped apart your soul; you haven't experienced poetry. 

Edgar Allan Poe

30 May 2015

O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades... sei lá de quê!

Florbela Espanca

18 April 2015

O Sorriso

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

Eugénio de Andrade

4 April 2015

Talvez melhor que Ir simplesmente, seja Ir sabendo que o Amor me segura a mão. Aprendi a melhor solidão, para ser agora melhor companhia. Aprendi na boa solidão as melhores escolhas, para saber que mãos aceitar. Amar é ser luz de quem mais essa luz sente. Viver é aprendê-lo.

Lorina Ventura

O Nome das Coisas

Há momentos em que temos, mesmo, de ouvir o nosso corpo e a nossa alma, e respeitarmo-nos incondicionalmente. Esquecer os outros e olhar para nós - sou, hoje, contra tudo e todos, uma séria respeitadora desta filosofia na minha vida. 
Em termos práticos, e na minha vida, isto resulta em fazer nada mais do que aquilo que me apetece e preciso. Ser perfeitamente feliz assumindo que estou melhor sozinha do que com planos cheios de horas mundanas só para matar tempo e que há pessoas e coisas que tão somente (já) não me interessam. Foi um longo processo de conhecimento até perceber o que funciona para mim e o que não, e outro processo, não tão longo, de assumir o meu verdadeiro Eu, tantos anos submisso a vontades alheias que eu dei como minhas...

Sou muito boa em cortar elementos da minha vida e mudar planos para meu bel prazer. Este fim-de-semana, 4 dias, foi um deles... Desejei não fazer nada. Tive planos para os 4 dias, para jantar, para café, para isto e para aquilo e nenhum me fez querer mudar a vontade de fazer nada. Sou a minha melhor companhia, que posso fazer? Noutros tempos iria querer fazer tudo e adoraria ver que tinha realmente "imenso" com que me entreter; hoje, porém, renuncio a tudo para ter até a hora do almoço livre para ver um documentário que quero há tempo demais - O Nome das Coisas sobre Sophia de Mello Breyner Andresen - e acabar desfeita em lágrimas.
É para isto que eu vivo, para mim.
Os efeitos secundários da Poesia são tramados, mas a verdade é que, e evocando Edgar Allan Poe, "se um poema nunca te desfez a alma, nunca experimentaste a poesia."

Excerto do documentário relativo à visita de Manuel Alegre a Sophia de Mello Breyner Andresen no hospital:

"A última vez que eu estive com Sophia foi muito pouco antes de ela morrer. Ela não estava deitada, estava sentada, com uma almofada, vestida de branco, estava bonita, estava estranhamente bonita.
Ela ficou a olhar muito séria para mim, eu percebi que ela não me estava a reconhecer e falei-lhe e ela imediatamente disse "Manuel Alegre" e depois disse o nome da minha mulher. E então eles pediram-me para eu dizer uns versos e eu (...) disse-lhe "ia e vinha e a cada coisa que perguntava" e ela disse "que nome tinha?". (...) e depois pediu Camões, e eu "erros meus, má fortuna" e ela foi-me acompanhando mesmo quando as palavras já não lhe saiam muito bem e a partir de certa altura ela dizia só a música do poema, era poesia em estado puro, absolutamente puro e depois aquilo parou porque eu já não fui capaz de continuar... Mas é a última imagem dela, é o ritmo, essa energia, poesia como forma de energia ou de música. Mesmo quando faltavam as palavras ficou a música, ficou essa actuada."


21 March 2015

Há noites, já no escuro, é esta a voz que quebra o silêncio do meu quarto


Cântico Negro de José Régio, na interpretação de João Villaret
Ah! Que força motora!!!


10 March 2015

Respect yourself to know you deserve the very best


I have always been the woman of my dreams.

Nayyirah Waheed

3 March 2015

Para viver deixo que me partam ao meio. Não me vejo de outra forma. Se tal me for impossível, se a vida estiver de tal forma feliz, destrui-la-ei sozinha. Amargarei os pensamentos, porei em causa o meu valor. Para viver intensamente serei ácida, inconstante, cáustica, dilacerante. Não quero o mundo de outra maneira. Para viver dissiparei, querendo ou não no fundo, todas as hipóteses de ter paz. A vida não pode ser mais ou menos porque eu não sou. Assim voarei a pique até ao mar para ir buscar o peixe que melhor se esconde nas profundezas da segurança, na escuridão do silêncio, e trá-lo-ei até à minha superfície, para que ele conheça a luz, o desassossego. Para que saiba o que é isto da “vida” roçarei a morte, já que sempre a imagino, e serei a primeira a lançar a pedra mesmo sendo reconhecendo-me errante. Para viver fugirei desde cedo à polícia numa lambreta, beberei antes de conduzir, ignorarei todos os avisos, passearei em propriedades privadas para uma bela tarde de coração aos saltos. Mais que isso tudo, comprarei bilhetes só de ida no dia em que estiver mais completa onde estou. Amarei um só homem. Deixarei que me partam ao meio, deixarei. Que o meu coração se desmanche pois não há outra forma de saber como é, como funciona, se não for aberto.

Lorina Ventura

25 February 2015

It’s strange.
How we never have enough time for anything.
To read. To write. To sleep.
To run errands. To watch movies. To cook.
To Relax. To see friends. To travel.
Until we find love.
For love is timeless & is not bound by schedule.

Joe Pound

1 December 2014

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, 
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas. 

Adeus.
Eugénio de Andrade

22 October 2014

Love poem


It's so nice
To wake up in the morning
all alone
and not to tell anybody
you love them
when you don't love them
anymore.

Richard Brautigan

23 September 2014

Quantas vezes estendi a mão e nela guardei a tua ausência?

Al Berto

17 September 2014

O dia indicado para um dos meus poemas preferidos


"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

"Cântico Negro", José Régio

8 September 2014

Words and Pictures

"Words and Pictures" is one of those feel-good-and-inspired movies for precisely words and pictures lovers, (like me?).
Thinking of that, it just made me realize the importance of these two worlds in my life, how I actually need words and pictures, how much of my important alone-time I spend in/with them and how I've been founding myself through it...
With that said, I feel like sharing one of the last speeches from the movie by 'Jack Marcus':

Each artist makes the world his or her own, and in doing so elevates it. And in doing that elevates us, gives us a larger view.
"Art is the most intense mode of individualism the world has ever known." Oscar Wilde.
Proust said that only through art can we get outside of ourselves and know another's view of the universe.

(...)
And the value of artists like that, artists like Miss Delsanto, is that through their gifts, their agonies, their energies, and their vision, they make us feel our best. They make us want to be our best. And I thank all of you for allowing us this opportunity to honor the artists and the arts, not through a battle,but through a... a coming together, a mating of words and pictures.

 

4 August 2014

(...)
Penso que nunca mais subirei até ao degrau com que me vejo nítida,
Malditas mãos dos perdidos que me seguram os pés.
Recebi uma música que é a tua mais triste,
E aí percebi que nunca soubeste o que me ser.
Foste hóspede da minha casa e dormi contigo enquanto frio tinhas,
Mas chegou o calor e as mãos derreteram-se.
Juntam-se vidas e separam-se mortes,
Quantas um corpo pode aguentar é que é a cruz.
Não tenho saudades de muita coisa,
Pensei que teria mais ao longo dos dias
Mas esses tornaram-se longos de mais para isso.
Tenho um copo de whisky na mão direita
E não pouso a caneta porque aqui o tempo é dinheiro.
Time is money.
Quero para mim o inexplicável desta frase,
Tão oca quanto as pessoas que cá andam.
(...)

Sara da Costa Oliveira

18 June 2014

Tributo aos teus 20 anos

Tivesse eu o poder dos Deuses
O engenho e a arte de David
    A força dos quatro Elementos
    E poderosa
    De desígnios vitoriosos auspiciada
    Em épica batalha POR TI desferiria
    De mão dura e pesada
    Fero golpe
    Na inclemência do Tempo

     E anulado o malfadado sortilégio
     Imortalizava:

    A frescura da tua fronte
    O contorno primaveril e ameno da tua face
    A vaporosa rebeldia dos teus cabelos
    A fragrância que roubas às flores
    E as formas belas e perfeitas do teu corpo
    Esculpido de vento de terra de sol e de mar
   
     E de tudo isto…essencialmente a Causa
            Primária_

    _Esse apogeu fulguroso 
    Que em instancias de inveja aos Deuses
    Veste de indizível Graça
    A essência de um Todo.

Fernanda Lemos








 




Pateira.

Ódio?


Ódio por ele? Não... Se o amei tanto,
Se tanto bem lhe quis no meu passado,
Se o encontrei depois de o ter sonhado,
Se à vida assim roubei todo o encanto...

Que importa se mentiu? E se hoje o pranto
Turva o meu triste olhar, marmorizado,
Olhar de monja, trágico, gelado
Como um soturno e enorme Campo Santo!

Ah! Nunca mais amá-lo é já bastante!
Quero senti-lo d’outra, bem distante,
Como se fora meu, calma e serena!

Ódio seria em mim saudade infinda,
Mágoa de o ter perdido, amor ainda.
Ódio por ele? Não... não vale a pena.
 

Florbela Espanca, in Livro de Soror Saudade
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